
Era um menino como todos os outros. Levava sua vida com aquela energia inesgotável típica da infância. Gostava de correr. Era o mais rápido da região, como dizia seu tio.
Preocupava-se em vencer o campeonato de bola de gude da rua, queria pegar todas as bolinhas do Lucas por que achava ele folgado demais. Adorava rir. Ria até a barriga doer. Tinha um amigo chamado Tião que contava as melhores estórias sobre sustos e assombrações, travessuras que fazia e alguns palavrões que aprendia no bar do seu Moisés. Claro que sem ninguém saber, senão a sova seria "daquelas brabas".
Gostava de tudo isso, porém o que mais te agradava era o abraço de seu pai. Ah, não havia lugar no mundo tão seguro quanto ali. Em noites frias, de pesadelo, nos dias que a mãe estava brava ou que os meninos queriam bater corria e pulava nos braços do pai quando ele estava em casa.
O nem sempre acontecia. O pai trabalhava para o fazendeiro da região como um dos seus capatazes. Ficava alguns dias fora de casa, ás vezes meses quando viajava com o patrão, mas sempre voltava feliz e com vários presentes. Sua mãe emocionava com a chegada e deprimia com a partida.
O pai sempre que saía beijava a mãe bem forte e dia: "Mulher, eu prometo que vou voltar."
Só que depois dessa partida, nunca mais voltou. Até que um dia uma carta chegou e a vizinha dona Cadinha (era uma das poucas que tinha familiaridade com as letras por ser mulher de político) leu para a mãe.
Palavras lidas. Momento de silêncio. Desmaio da mãe. Velório do pai.
O menino se sentou debaixo do caixão. Era o lugar mais seguro daquela sala. Todos cochichavam. Alguns lamentavam em voz alta. Os amigos capangas do pai diziam que vingariam a morte dele. Ao entardecer todos já estavam em suas casas, o enterro havia sido cansativo.
A mãe se aproxima do menino e diz: "Agora você é o homem da casa!"
Naquele momento ele soube que deixou de ser menino como os outros.

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