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22 Janeiro 2010

E se me dessem asas?

Ele ainda respirava, o que para mim era um milagre. Aliás, tudo aquilo era uma intervenção divina. Mas não entendia por que ele estava ali. Segundo o meu aprendizado, aqueles que caem é por que foram expulsos de lá. Porém, ele era tão pequeno. Acho que estava tentando voar por que suas asas também eram pequenas... Na tentativa pode ter desequilibrado.

Finalmente acordou. Era lindo. Os olhos tinham a cor do amanhecer. Eram alaranjados com o contorno azul. Ele ficou me olhando durante muito tempo. Estava assustado tremendo de medo. Sorri para ele, pensei em dizer algo só que não sabia se eles conseguiam falar. Ou ao menos entender o que diziamos. Mentalizei coisas boas, pensamentos que tentavam acalmá-lo. E obtive sucesso com isso.

Sentou em minha cama e começou a olhar ao redor. Parecia procurar algo familiar. Infelizmente não seria possível, há muitos anos abdquei de minhas convicções religiosas e joguei fora todas as coisas que possuia: santos, bíblias, contas de orações e anjos.

Apesar da confusão que aparentemente sentia, ele desceu da minha cama e pegou uma foto minha que estava sobre o criado mudo. Era antiga, eu tinha uns dez anos nela e estava com asas de anjo naquele dia, pois iria participar da coroação da igreja na cidade de minha avó. Ficou olhando para ela e depois voltou-se para mim dizendo: "O que fez com suas asas?"

Eu não sabia o que dizer e por isso fiquei calada. Procurei pegar meu kit para fazer um curativo nas asas dele, afinal elas pareciam incomodá-lo.

Dias se passaram e eu já estava me acostumando com a presença daquele pequeno em casa. Ele ficou impressionado com a televisão e as coisas que nós humanos erámos capazes de fazer. Ora ele ria muito com nossas dores ora chorava com nossas proezas.

Durante todos esses dias não tive a menor coragem de lhe perguntar o que havia ocorrido e ele parecia não ter preocupação de me dar alguma explicação. Apenas me perguntava constantemente por que eu não tinha mais asas.

Depois de um mês ele se aproximou de mim no quintal e disse que iria embora. Perguntei quando seria e me respondeu: "Hoje a noite." Quando a tarde chegou levei-o para o alto de uma montanha para que pudessemos ver o por do sol. Foi um dos melhores momentos da minha vida. Quando a noite caiu ele me agradeceu e antes de ir embora disse: "Não entendo vocês, preferem perder asas e viver aqui presos ao chão do que usá-las para voar. Lutam por liberdade, mas renunciam a própria dia após dia em atividades que de nada servirão para suas vidas. Prendem a mente em coisas tão insignificantes quando possuem outras maiores ao redor para se preocupar. Deve ser por isso que Ele os ama tanto, por causa dessa fragilidade diante da vida. Sempre irão precisar de cuidado. Sempre."

"Cortei minhas asas para crescer. Mas ao crescer comecei a rastejar no chão. Eu era mais quando podia voar... "

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